
A creatinina subiu no seu exame depois que você começou a tomar creatina? Antes de entrar em pânico, entenda por que esse número engana e o que a ciência mostra sobre creatina e função renal em quem tem rim saudável.
Um paciente saudável toma creatina há três meses, faz um exame de sangue de rotina e a creatinina volta um pouco acima da referência. O médico, sem saber do suplemento, levanta a sobrancelha. A pessoa entra em pânico. Essa cena se repete em consultório todo dia, e quase sempre termina do mesmo jeito: não era o rim, era a creatina fazendo exatamente o que se espera dela.
Vale entender por que isso acontece, porque o mal-entendido nasce de uma coincidência de nomes. Creatina e creatinina não são a mesma coisa, mas uma vira a outra.
A creatina fica guardada no músculo e serve para repor energia em esforços curtos e intensos. Uma fração pequena dela, algo em torno de 1 a 2% por dia, se degrada naturalmente e se transforma em creatinina, um resíduo que o rim filtra e joga fora na urina. É justamente essa creatinina que o laboratório mede para estimar como o rim está trabalhando.
Repare na armadilha. Se você coloca mais creatina no corpo todo dia, tem mais matéria-prima virando creatinina. O número no exame sobe um pouco. Só que ele subiu porque entrou mais substrato, não porque o rim parou de filtrar. É como acusar a balança de engordar você. O marcador reflete o consumo do suplemento, não uma queda na função renal.
Os pesquisadores separam essas duas coisas com um exame diferente, que estima a taxa de filtração glomerular. Quando olham para a filtração de verdade, e não só para a creatinina isolada, o quadro muda.
Aqui a evidência é bastante consistente. Uma revisão sistemática com metanálise publicada na BMC Nephrology reuniu os ensaios disponíveis e concluiu que a creatina eleva de forma modesta a creatinina do sangue, mas não piora a taxa de filtração glomerular em adultos saudáveis. Ou seja: o marcador oscila, o filtro continua intacto.
O posicionamento da International Society of Sports Nutrition, que é uma das referências mais citadas no assunto, vai na mesma direção. O documento afirma que não há evidência científica de que o uso de creatina monoidratada, de curto ou de longo prazo, cause dano renal em pessoas saudáveis nas doses recomendadas. Eles revisaram protocolos que iam de poucas semanas a vários anos de uso.
No Brasil, a Revista Brasileira de Medicina do Esporte publicou uma revisão assinada por pesquisadores da USP que fez exatamente essa pergunta no título: a suplementação de creatina prejudica a função renal? A resposta dos autores foi que os estudos em humanos saudáveis, na dose usual, não mostram efeito deletério sobre o rim. Eles também foram honestos ao apontar que boa parte dos relatos de alarme vinha de casos isolados e retrospectivos, que não permitem cravar causa e efeito.
Junte as três fontes e o recado é o mesmo. Em gente com rim funcionando bem, tomar creatina nas doses de uso comum não aparece como fator que estrague a filtração.
Isso não é um passe livre para todo mundo, e é aqui que a conversa precisa de nuance. As mesmas revisões que tranquilizam sobre pessoas saudáveis fazem uma ressalva clara: falta evidência boa em quem já tem doença renal instalada. Se o rim já está comprometido, adicionar uma substância que mexe nos marcadores e que é eliminada por ele merece um olhar profissional, não uma decisão tomada por conta própria na prateleira da farmácia.
Grávidas e lactantes também entram no grupo em que os dados são escassos, simplesmente porque não se testa esse público como se testa um adulto saudável na academia. Ausência de estudo não é sinal verde, é sinal de que ninguém sabe direito.
Tem um detalhe prático que evita susto e vale ouro: se você faz creatina e vai colher sangue, avise o médico. Um bom profissional interpreta a creatinina levando isso em conta, ou pede um marcador que não sofre a mesma interferência. Já vi gente ser mandada para um nefrologista por um número que era puro efeito do suplemento. Uma frase na anamnese resolve.
Sobre dose, a faixa que aparece na literatura como padrão de manutenção costuma ser pequena, na casa de alguns gramas por dia. Não trato isso como prescrição porque quantidade certa para o seu corpo e para o seu objetivo é assunto de quem acompanha o seu caso. O ponto do texto é outro: a segurança renal em rim saudável não é o que deveria tirar o seu sono.
Se você tem histórico de problema renal, pressão alta de longa data, diabetes ou toma medicação que já pesa no rim, leve a decisão para o consultório antes de começar. Para o resto das pessoas, o medo de que a creatina destrói o rim é, olhando a evidência disponível, muito maior do que o risco que ela realmente representa.
Este conteúdo é informativo e não substitui a orientação de um médico ou nutricionista. Decisões sobre medicação, dieta ou suplementação devem ser tomadas com acompanhamento profissional, considerando o seu caso.