
Você toma "pra garantir", mas será que faz alguma coisa? O que os estudos grandes mostram sobre o comprimido diário, quando ele faz sentido de verdade e por que mais dose não é melhor.
Você abre o armário do banheiro e lá está ele: o pote de multivitamínico que você toma "pra garantir". Comprou porque parecia sensato, porque a alimentação nem sempre é perfeita, porque um amigo jurou que se sente mais disposto. A pergunta honesta é se aquele comprimido diário está fazendo alguma coisa além de aliviar a consciência.
A resposta curta, para a maior parte das pessoas saudáveis que comem de forma razoavelmente variada, é: quase nada de comprovado. E tudo bem se isso soa decepcionante, porque a indústria vendeu por décadas a ideia oposta.
Em 2024, pesquisadores do Instituto Nacional do Câncer dos Estados Unidos publicaram uma das maiores análises já feitas sobre o assunto. Acompanharam quase 400 mil adultos saudáveis por mais de 20 anos e compararam quem tomava multivitamínico diariamente com quem não tomava. Não acharam nenhuma associação entre o uso regular e menor risco de morte. Nenhuma. O comprimido diário não fez as pessoas viverem mais.
Esse resultado conversa com uma pilha de estudos anteriores que já vinham na mesma direção: em gente saudável, o multivitamínico de rotina não previne câncer, não protege o coração e não estende a vida. Ele não é remédio, e tratar como se fosse é onde mora a confusão.
Vale entender por quê. A intuição diz que, se a laranja faz bem por causa da vitamina C, então engolir vitamina C isolada faria o mesmo bem. O Guia Alimentar para a População Brasileira desmonta isso de forma direta: a proteção que frutas e verduras oferecem contra doenças do coração e certos tipos de câncer não se repete quando você entrega os mesmos nutrientes isolados num comprimido. A comida é um pacote. Fibra, água, milhares de compostos que agem juntos e que a ciência nem terminou de mapear. Nenhuma cápsula reproduz isso.
Essa é a frase mais comum, e ela merece franqueza. Vitaminas não contêm calorias, e caloria é o que o corpo usa como combustível. Um multivitamínico não "dá energia" no sentido de disposição imediata. O que costuma acontecer é o efeito placebo, que é real e não é motivo de vergonha, só não é farmacológico.
A exceção verdadeira é quando falta mesmo alguma vitamina. Aí, corrigir a deficiência costuma melhorar o cansaço de forma sensível. A diferença é que isso se descobre com exame e avaliação, não tomando um multivitamínico às cegas na esperança de acertar.
Existe um outro lado. Nem todo mundo se encaixa no perfil de "saudável e comendo variado", e para alguns grupos a suplementação pode fazer diferença de verdade. Alguns exemplos que costumam aparecer na prática:
Repare no fio que une todos esses casos: existe um motivo concreto e, de preferência, uma avaliação profissional por trás. Não é "pra garantir". É porque há uma lacuna identificada. E, mesmo nesses casos, muitas vezes o certo é repor o nutriente específico que falta, não um multivitamínico genérico com trinta ingredientes que você nem sabe se precisa.
Tem ainda a parte que pouca gente considera: mais não é melhor. As vitaminas lipossolúveis, A, D, E e K, ficam armazenadas no corpo e podem causar toxicidade quando consumidas em excesso por muito tempo. Não é teoria distante. Quem toma um multivitamínico, mais um suplemento de vitamina D por conta própria, mais um pote de ômega com vitamina A, pode empilhar doses sem perceber.
A Anvisa estabelece limites mínimos e máximos de nutrientes para os suplementos justamente por isso, com valores definidos por faixa de idade e situação. É um sinal de que a conversa sobre dose é séria, e que "quanto mais, melhor" é uma crença que pode cobrar caro do fígado, dos rins e do sistema hormonal.
Não precisa de drama. Se você é uma pessoa saudável e come bem, provavelmente aquele multivitamínico diário não está te fazendo mal em dose normal, só não está fazendo o bem que você imagina, e o dinheiro talvez rendesse mais no hortifrúti. Se você desconfia que falta algo, ou se está num daqueles grupos de maior necessidade, o caminho que funciona é o oposto de comprar por impulso: um exame de sangue e uma conversa com quem entende do seu caso.
Antes de gastar com o próximo pote, vale trocar a pergunta. Em vez de "qual multivitamínico é o melhor?", tente "o que anda faltando de verdade no meu prato?". Na maioria das vezes, a resposta cabe numa feira, não numa farmácia.
Este conteúdo é informativo e não substitui a orientação de um médico ou nutricionista. Decisões sobre suplementação, dieta ou uso de vitaminas devem ser tomadas com acompanhamento profissional, considerando o seu caso, seus exames e o seu histórico.