Aquela dor que bate um dia depois do treino virou sinônimo de treino bom. Só que ela mede muito pouco, e definitivamente não é o que faz o músculo crescer.
Você treina pernas na segunda, acorda na quarta mal conseguindo descer a escada e pensa: agora sim, foi um treinão. É quase automático. A gente aprendeu a ligar dor a resultado, como se o músculo só fosse crescer se você pagasse com sofrimento no dia seguinte. Só que essa conta não fecha. A dor que bate um ou dois dias depois do treino tem nome, tem explicação, e não é o termômetro que você acha que é.
Ela se chama dor muscular de início tardio, ou DOMS, na sigla em inglês. O nome já entrega a principal característica: ela demora para aparecer. Costuma surgir entre 6 e 12 horas depois do treino, atinge o pico geralmente entre 24 e 72 horas e some sozinha em até uns 7 dias. Por isso a perna pesada só na quarta, e não logo depois de treinar.
Durante muito tempo se falou que a culpa era do ácido lático acumulado. Esquece isso. O lactato é eliminado do organismo em cerca de 2 horas depois do exercício, ou seja, ele nem fica tempo suficiente para causar dor dois dias depois. O que realmente acontece são microrrupturas nas fibras musculares, principalmente nas contrações excêntricas (a fase em que o músculo trabalha alongando, tipo descer o agachamento devagar ou controlar a descida da rosca). Essas microlesões disparam um processo inflamatório que sensibiliza as terminações nervosas. Daí a dor.
Repare numa coisa: isso é uma resposta a um estímulo novo ou incomum. Por isso a DOMS é campeã no começo, quando você volta depois de meses parado, ou quando muda o treino, aumenta a carga, coloca um exercício diferente. Não é sinal de que aquele treino foi melhor. É sinal de que ele foi diferente do que seu corpo estava acostumado.
Aqui está o ponto que derruba o "no pain no gain". Sentir dor não quer dizer que o músculo vai crescer mais. Uma pesquisa de doutorado de Felipe Damas, na Escola de Educação Física e Esporte da USP, mostrou que o dano muscular não causa nem potencializa a hipertrofia. Pelo contrário: quando você gera muito dano, a síntese proteica é usada primeiro para reparar o tecido, e não para fazê-lo crescer. O crescimento de verdade só aparece quando esse dano vai sendo progressivamente reduzido ao longo do tempo de treino. A frase que resume a tese do pesquisador é ótima: "Sem dor, com ganho".
Everton Crivoi, doutor em ciências do esporte que cuida da preparação física no Espaço Einstein Esporte e Reabilitação, vai na mesma linha. Ele afirma que não existe relação direta entre sentir dor e ter melhores resultados, e que dá para ganhar força e massa muscular sem sentir dor. A DOMS mostra que houve estresse muscular. Só isso. Não é um selo de qualidade do treino.
Tem até estudo que testou isso de forma controlada. Lodo e colaboradores compararam treino de força a 50% e a 75% de 1RM com o volume total equalizado, e concluíram que a intensidade não determina o tamanho da dor. Ou seja, dá para fazer um treino puxado e pesado e não ficar dolorido, e dá para fazer um treino leve e diferente e acordar todo travado. A dor não te conta se você fez a coisa certa. E tem mais: a DOMS pode até atrapalhar, porque quem sente muita dor tende a faltar, empurrar o treino ou largar o programa.
O tripé é chato de tão conhecido, mas é ele mesmo: sobrecarga progressiva, comida e descanso.
Sobrecarga progressiva é dar ao músculo um motivo para se adaptar, semana após semana. Isso pode ser mais carga na barra, mais repetições com o mesmo peso, mais uma série, uma execução mais controlada. O corpo cresce porque você está pedindo um pouco mais dele ao longo do tempo, não porque você o destruiu numa sessão. Depois vem a proteína suficiente ao longo do dia para reconstruir o tecido, e o sono e os dias de descanso para essa reconstrução acontecer. É no descanso que o músculo cresce, não na dor.
Se o seu único parâmetro de progresso for a dor, você vai se sabotar. Vai achar que o treino sem dor foi fraco (e talvez tenha sido o melhor da semana) e vai treinar buscando ficar dolorido, o que é fácil: basta variar demais e nunca deixar o corpo se adaptar. O melhor parâmetro é objetivo. Você está conseguindo levantar mais carga, fazer mais repetições, evoluir nos exercícios ao longo das semanas? É aí que mora a resposta. Registrar a carga de cada série no app e olhar a progressão depois de um mês diz muito mais sobre a qualidade do seu treino do que a perna pesada na quarta-feira.
Nem toda dor é aquela DOMS de boa. Vale saber diferenciar.
A dor normal costuma ser difusa, espalhada pelo músculo inteiro que você treinou, e mais ou menos simétrica (os dois quadríceps, os dois peitorais). Ela aparece com atraso, dá aquela sensação de rigidez e sensibilidade ao toque ou ao alongar, melhora quando você se movimenta um pouco e vai embora sozinha em poucos dias. É desconfortável, mas você consegue tocar a vida.
Já a dor que é alerta tem outra cara. Fica de olho quando:
Esse segundo tipo pede cautela, e às vezes um profissional de saúde. Dor muscular tardia é uma coisa. Dor de tendão, de articulação ou de possível lesão é outra bem diferente, e insistir no treino por cima dela é o caminho mais curto para ficar meses parado.
No fim, largar a ideia de que precisa doer é um alívio. Você para de perseguir o desconforto e passa a perseguir o que importa: um pouco mais de carga, mais uma repetição, constância na semana, comida e sono na conta. O músculo agradece, e você desce a escada na quarta sem drama.