Os 2 litros para todo mundo nunca foram lei, e os 8 copos também não. A necessidade muda com peso, calor e treino, e cerca de metade da sua água pode vir do arroz com feijão. A conta dos 35 ml por quilo, o que a cor da urina diz e onde as fontes discordam sobre a sede.
Não existe um número que sirva para todo mundo. Essa é a resposta chata, e é exatamente a que o Ministério da Saúde dá: a quantidade ideal de água por dia depende da idade, do peso, da atividade física e até do clima do lugar onde você vive. Para algumas pessoas, dois litros bastam. Para outras, três, quatro litros ou mais, principalmente quem treina pesado.
Nenhum órgão de saúde brasileiro manda você contar oito copos. O Guia Alimentar para a População Brasileira, quando fala de quantidade, é quase provocador de tão simples: beba a quantidade que o organismo pedir. Sem tabela, sem meta fixa.
Existem números de referência lá fora, mas nem todos medem a mesma coisa. A EFSA, agência europeia de segurança dos alimentos, considera adequados 2,0 litros por dia para mulheres adultas e 2,5 litros para homens adultos. Só que esse valor é de água total: soma o que você bebe com a água que vem da comida. Eduardo Barbosa Coelho, professor de nefrologia da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP, fala de outra coisa. Segundo ele, para um adulto numa dieta normoproteica padrão, cerca de 1 a 1,5 litro de água costuma bastar para manter o balanço hídrico. Empilhar esses dois números como se fossem a mesma unidade é o erro que sustenta metade dos posts sobre hidratação.
A conta mais usada por nutricionistas aqui é multiplicar o peso corporal por 35 mililitros. Uma pessoa de 60 kg chegaria a cerca de 2.100 ml, ou 2,1 litros por dia. Alguém de 90 kg passaria de 3,1 litros. Tem uma virtude real: pelo menos reconhece que gente de tamanhos diferentes precisa de quantidades diferentes, coisa que o "2 litros para todos" ignora solenemente. Mas é estimativa, ponto de partida, não meta sagrada. A fórmula não sabe se você mora em Manaus ou em Curitiba, nem quanta água veio do seu almoço.
Segundo o Ministério da Saúde, verduras e legumes cozidos ou em salada costumam ter mais de 90% do peso em água. Frutas e leite ficam entre 80% e 90%. Massa, batata e mandioca cozidas rondam os 70%. Um prato de arroz com feijão é dois terços de água.
Daí vem a parte prática: quando a alimentação é baseada nesses alimentos, é usual que eles forneçam cerca de metade da água que você precisa ingerir no dia. Sopa também conta. Refrigerante é caso à parte: tem água, sim, mas vem carregado de açúcar e aditivos, e por isso o próprio Guia Alimentar não o trata como fonte adequada de hidratação.
Em 2022, um estudo publicado na revista Science mediu a troca de água em 5.604 pessoas, de bebês a idosos de 96 anos, com água marcada por isótopos. Os autores alertam: a água que passa pelo corpo não é a mesma coisa que a água que você precisa beber. Feita a conta, boa parte do total vem da comida, e o que sobra para beber fica em torno de 1,5 a 1,8 litro por dia.
Cor da urina. É de graça, é imediato e dispensa planilha.
A nefrologista Ana Flávia Moura, presidente da Sociedade Brasileira de Nefrologia Regional Bahia, resume assim: idealmente a urina é amarela clara e de aparência transparente. Amarelo escuro sugere desidratação e costuma melhorar com o consumo adequado de água.
A sede é o outro sinal, e aqui as fontes divergem de verdade. O Guia Alimentar orienta atentar aos primeiros sinais de sede e satisfazer a necessidade de pronto. Já material da UFRGS recomenda não esperar a sede chegar, porque nesse ponto o corpo já pode estar caminhando para a desidratação. Na prática, para adulto saudável em dia comum, seguir a sede funciona bem. Em treino longo, calor forte ou na terceira idade, esperar a sede é apostar num alarme que toca tarde. E tem um limite: se a urina continuar escura mesmo depois de você se hidratar direito, ou aparecer em outra coloração, não é assunto de garrafinha, é caso de procurar um médico.
O Ministério da Saúde reconhece que esportistas podem precisar de três, quatro litros ou mais. Faz sentido: você perde água pelo suor, e o quanto perde depende da intensidade, da duração, da roupa e da temperatura da academia. Se você usa o NuFocco, o controle de água do app serve para enxergar essa diferença, não para virar meta moral a bater.
Exagerar tem custo. Roberto Zatz, professor de nefrologia da USP, explica que os rins têm grande capacidade de eliminar excesso de água, o que permite uma ingestão máxima superior a 15 litros por dia. O problema aparece acima disso, ou quando a ingestão é rápida demais, algo como cinco litros em meia hora, sem tempo para os rins darem conta. Aí entra a intoxicação hídrica, com inchaço cerebral e complicações neurológicas graves. Está longe da rotina de quem só quer treinar bem, mas mata a ideia de que quanto mais água, melhor.
Quem tem doença renal ou cardíaca sai inteiro dessa conversa. Nesses casos o volume de líquido pode precisar de restrição, e quem define é o médico. O mesmo vale para gestantes. Fórmula de blog não se aplica a caso clínico.
Ponto de partida: beba quando sentir sede, coloque água junto das refeições e olhe a cor da urina no meio da tarde. Se a urina está clara e a sede não te persegue, você provavelmente já está bem, mesmo que o app diga que faltam 400 ml.
Este conteúdo é informativo e não substitui a orientação de um médico ou nutricionista. Decisões sobre medicação, dieta ou suplementação devem ser tomadas com acompanhamento profissional, considerando o seu caso.