
A melatonina é o hormônio que avisa o corpo que a noite chegou, não um sonífero. Veja para que ela serve de verdade e o que a ANVISA liberou no Brasil: suplemento até 0,21 mg por dia, só para maiores de 19 anos e sem promessa de tratar insônia.
Melatonina virou assunto de mesa de bar. Uma hora alguém conta que comprou um vidro nos Estados Unidos com comprimidos de 5 mg, outra pessoa jura que dorme melhor desde que começou a tomar, e no meio disso quase ninguém sabe o que a ANVISA realmente permite por aqui. Então vamos separar o que é fato do que é propaganda.
Melatonina é um hormônio que o seu próprio corpo fabrica, principalmente na glândula pineal, lá no cérebro. A função dela não é te apagar como um remédio para dormir. É mais sutil: ela sinaliza para o organismo que a noite chegou e que está na hora de desacelerar. Conforme escurece, a produção sobe; quando bate luz nos olhos, ela cai. Por isso os especialistas falam tanto em ritmo circadiano, que é esse relógio biológico interno que organiza sono e vigília ao longo das 24 horas.
A melatonina ajuda a ajustar esse relógio. Ela não é um sonífero. Quem espera engolir e desmaiar em cinco minutos costuma se frustrar, porque não é assim que ela age. O papel dela é preparar o terreno, avisar o corpo de que a fase de descanso começou.
Aqui entra o ponto que mais confunde. Muita gente associa melatonina a tratamento de insônia. Só que, no Brasil, ela não tem indicação aprovada para isso. O Ministério da Saúde é direto ao dizer que não há evidências científicas de que a suplementação traga benefícios comprovados à saúde, e que ela não tem aprovação para tratar insônia ou distúrbios do sono. Isso não quer dizer que a melatonina seja inútil, quer dizer que a regra por aqui a trata como alimento, não como medicamento. E a diferença importa mais do que parece.
Em outubro de 2021, a ANVISA autorizou a melatonina como suplemento alimentar. Foi um marco, porque antes ela nem circulava legalmente nessa categoria. Mas a liberação veio com regras claras, e é nessas regras que quase toda conversa de bar tropeça.
Repare no tamanho da dose. Aqueles frascos importados de 3, 5 ou 10 mg estão muito acima do que a ANVISA autorizou para suplemento no Brasil. Um comprimido de 5 mg carrega mais de vinte vezes o limite diário permitido nessa categoria. Produtos com dosagem acima de 0,21 mg vendidos como suplemento são considerados irregulares pela agência.
Do lado técnico, a autorização saiu por uma alteração da Instrução Normativa 28/2018, que lista as substâncias permitidas em suplementos. A melatonina entrou porque se encaixa na definição de substância bioativa, já que aparece naturalmente em alimentos e tem função metabólica bem descrita. Nada de mística, é classificação regulatória mesmo.
Doses acima de 0,21 mg existem e são usadas em vários países, muitas vezes em contextos específicos, como ajustar o sono de quem trabalha em turnos ou atravessou vários fusos horários. Aqui, porém, isso sai do terreno do suplemento de prateleira. Uma dose maior só deveria chegar até você com prescrição e orientação de um profissional, seja por manipulação com receita, seja dentro de um acompanhamento médico. Não é frescura burocrática: dose, horário e duração mudam o efeito, e o que serve para uma pessoa pode não servir para outra.
A própria ANVISA lista avisos que os produtos precisam trazer, e eles dão a dimensão do cuidado. A melatonina não deve ser consumida por gestantes, lactantes, crianças e pessoas que fazem atividades que exigem atenção constante, como dirigir logo depois de tomar. E quem tem alguma doença ou usa medicamento de uso contínuo deveria conversar com o médico antes, porque pode haver interação. Gente com epilepsia, asma ou transtornos de humor entra nessa lista de atenção redobrada.
Se o seu sono anda ruim, o reflexo de correr atrás de melatonina é compreensível, mas nem sempre é o primeiro passo mais útil. Boa parte dos problemas de sono responde a coisas menos glamurosas: horário mais regular para deitar e levantar, menos tela na cama, café cortado no fim da tarde, quarto escuro e fresco. Melatonina pode ter seu lugar em alguns casos, só que ela funciona melhor como parte de um conjunto do que como bala mágica.
E, sinceramente, se a insônia está te derrubando de forma constante, o caminho não é ficar testando frasco por conta própria. Vale procurar um médico para investigar o que está por trás. Sono ruim crônico costuma ter causa, e tratar a causa rende mais do que mascarar o sintoma.
Este conteúdo é informativo e não substitui a orientação de um médico ou nutricionista. Decisões sobre medicação, dieta ou suplementação devem ser tomadas com acompanhamento profissional, considerando o seu caso.